DA CADEIA DA
CONSTRUÇÃO“A próxima transformação do varejo da construção civil não será tecnológica.
Será estrutural.”
Um retrato honesto do que mudou na cadeia da construção civil e porque é hora da cadeia se reintegrar para crescer — varejo, distribuição e indústria.
Nos últimos 30 anos, o mercado de construção civil passou por uma transformação estrutural profunda. O sonho da casa própria se tornou distante para o brasileiro, uma vez que a renda não acompanhou a valorização dos imóveis.
Em 2000, uma família de renda média precisava de 3,5 anos de salário bruto para comprar um imóvel de 60 m². Em 2025 esse número aumentou para 9,5 anos — 2.7 vezes a mais para adquirir o mesmo imóvel (isso desconsiderando as taxas de financiamento).
Em 25 anos, a proporção de brasileiros morando de aluguel passou de 12,3% para 23,8%.
No mesmo período, o percentual de domicílios próprios quitados caiu de 76,8% para 60,2%.
Fontes: IBGE Censo Demográfico 2000 e 2010; IBGE Censo 2022; PNAD Contínua 2016–2025. Percentuais referem-se à população residente em domicílios particulares permanentes. Dados 2004 e 2008 interpolados.
“Ao invés de investir em um ativo de terceiro (residência alugada), o consumidor passou a priorizar pequenas reformas e decoração.”
As reformas autônomas/independentes, principal fonte de receita do varejo da construção, migraram da construção bruta para pequenas melhorias. O consumidor, que antes buscava cimento, areia, ferro e revestimento, agora busca por produtos de fácil aplicação e decorativos.
Uma pessoa que mora de aluguel não vai trocar piso, erguer uma parede ou construir uma área de festa nova. Essa pessoa vai priorizar a aplicação de papel de parede, fixar nichos e repaginar sua sala ou cozinha com móveis e decoração.
Fontes: SNIC, ABRAMAT/FGV, ANAMACO, CBIC/FGV IBRE, IBGE/PNAD Contínua, Nuvemshop/NuvemCommerce, ABCasa. Percentuais são estimativas de composição de demanda elaboradas a partir das variações relativas reportadas pelas fontes.
Com um orçamento cada vez mais reduzido, este consumidor encontra o que precisa no comércio eletrônico, principalmente em e-commerces asiáticos, como Shopee e Temu.
A Shopee e a Temu oferecem a esse público exatamente o que procuram: produtos baratos, visuais e de fácil aplicação. Em 6 anos no Brasil, as duas juntas passaram a ocupar 32% do mercado de decoração no Brasil.
Fontes: ABRAMAT/Ecconit, SNIC, Nuvemshop/NuvemCommerce, Webshoppers/Ebit-Nielsen, ABCasa, Citi/SimilarWeb, BTG Pactual. Participações de canal estimadas com base em declarações setoriais e relatórios de e-commerce. Dados referem-se ao segmento de decoração, DIY e produtos de reforma sem obra.
Posts como estes passam a viralizar cada vez mais nas redes sociais, que majoritariamente são dominadas pelas novas gerações de consumidores.
Posts virais de criadores de conteúdo nas redes sociais — reproduzido para fins informativos e de análise de mercado.
Produtos que antes eram vendidos em lojas físicas - e até produtos que o varejo físico se quer já tiveram na prateleira - hoje chegam direto da China na casa do consumidor.
Isso não é um problema passageiro.
Isso é uma reconfiguração estrutural que impacta toda a cadeia nacional, inclusive a origem: INDÚSTRIA e DISTRIBUIÇÃO.
A cadeia da construção civil funcionou, até pouco tempo atrás, de forma linear: a indústria produzia, o distribuidor armazenava e transportava, e o lojista vendia ao consumidor final e obras. Cada elo tinha seu papel bem definido, sendo as margens calculadas com base nessa estrutura.
Antes — A cadeia linear da construção civil
Quando o volume de produtos nacionais cai, toda a cadeia sente. E para manter-se competitivo, cada elo buscou se adaptar a economia nacional.
INDÚSTRIAS inevitavelmente tiveram que começar a atender construtoras devido à pressão por margem e rentabilidade dos imóveis.
DISTRIBUIDORES viraram atacarejo, atendendo o consumidor final, que antes era atendido pelo lojista (Exemplo: modelo híbrido — Obramax — 2ª maior varejista do Brasil chegando ao país em 2015).
Nascem OPERADORES DE E-COMMERCE visto a demanda crescente do comércio eletrônico impulsionado pelas redes sociais.
A FGV, em 2025, apresentou uma pesquisa informando que o varejo de construção civil cresceu 4,9% em 2024. Mas esse número não conta a história por completa.
O crescimento foi desigual e "puxado para cima" pelas redes e lojas com mais de 50 funcionários — Home Centers, Atacarejos e E-Commerces.
Dos 10 maiores varejistas do Brasil, os 2 primeiros - Leroy Merlin e Obramax - são do Grupo Francês Adeo, e ocupam uma posição híbrida no mercado. Leroy Merlin: Home Center e E-Commerce. Obramax trouxe o conceito de Atacarejo ao Brasil.
Enquanto isso, o pequeno e médio lojista continua lutando contra problemas estruturais que nenhum esforço de venda resolve sozinho.
O varejo de pequeno e médio porte da construção civil, que representa a espinha dorsal da distribuição capilarizada no Brasil (+152 mil lojas em território nacional), está no meio de toda essa pressão, sem condições necessárias para competir em igualdade.
Os principais pontos de atrito do varejo independente hoje são:
A loja física paga muito mais caro pelo mesmo produto que está sendo vendido mais barato na internet, muitas vezes pelo mesmo fabricante. Sem balanceamento na precificação, o lojista investe em produtos que não giram por falta de competitividade — mesmo fazendo o "trabalho invisível" de apresentar o produto in loco, muitas vezes tendo que escutar do consumidor um "Obrigado, mas vou comprar na internet porque é mais barato".
Fazer cadastro, inflexibilidade na escolha do canal de atendimento, crédito, informação técnica de produtos, entre outros. Tudo isso exige um esforço desproporcional do lojista. A burocracia das indústrias penaliza quem mais precisa de agilidade para competir.
Indústrias e distribuidores estruturaram seus times comerciais para grandes volumes. O varejo independente, com pedidos menores e frequentes, fica para o final da fila e, muitas vezes, para o final da lista de prioridades do comercial.
A maioria dos fornecedores terceirizou o comercial com representantes que não se modernizaram nos últimos anos. Sem dados históricos, informações de sell-out (preços praticados pelas revendas), acompanhamento de giro de produtos e sugestão de mix adequado, torna-se impossível estabelecer uma estratégia equilibrada e vencedora.
Sem integração comercial entre os elos, as decisões são tomadas no feeling. Nenhum lado da cadeia tem uma visão clara do que está acontecendo no PDV e com o consumidor final — e isso custa caro para todos.
Muito além da operação comercial, o varejo independente da construção civil movimenta bairros, cidades e relações de confiança construídas ao longo de décadas.
São milhares de lojistas independentes que abrem as portas todos os dias, conhecem seus clientes pelo nome, entendem a realidade local, orientam reformas, ajudam famílias, apoiam profissionais da construção e sustentam economias regionais em todo o país.
“O MC2 nasce da convicção de que dados, transparência e desburocratização são condições básicas para o varejista competir.”
O varejo independente da construção civil não precisa de caridade, precisa de condições justas para competir. Isso significa reorganizar a cadeia em torno de três pilares fundamentais.
Dados de Sell-in (preço de compra praticado) e Sell-out (preço de venda sugerido), tabelas de preço padronizadas para cada elo da cadeia, monitoramento e análise em tempo real do mercado.
Precificação justa, sem penalização do varejo físico frente a canais digitais ou atacarejos, e com margens saudáveis.
Gestão de carteira simplificada, liberdade na escolha de canais, agilidade no atendimento ao lojista e acesso facilitado a novos fornecedores.
Quando o varejo independente prospera, toda a cadeia ganha capilaridade, confiança e presença onde nenhum algoritmo chega.
Solução existe. Hoje a tecnologia está acessível à todos. O que falta agora é vontade coletiva e reconhecimento de todos os elos da cadeia — indústria, distribuidor e varejo.
Junte-se aos lojistas que estão reorganizando a cadeia da construção civil para competir em condições justas.
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